“O amanhã não existe para quem vive no ciclo do feed infinito”
Por Renata Freire
Quando adiamos uma tarefa difícil, não estamos apenas gerenciando mal o nosso tempo. Estamos travando uma verdadeira batalha emocional contra o nosso próprio cérebro que entende a tarefa a ser realizada como uma ameaça. Para a nossa mente, aquele relatório que temos que entregar para o chefe em cinco dias, ou mesmo até o final do expediente, é traduzido como um estresse, algo entediante ou que traz medo de falhar.
Vejamos o caso de Carlos que acaba de cumprir seus 35 anos de idade e trabalha em um escritório de administração em que o clima é de monotonia e o trabalho se assemelha aos antigos filmes do saudoso Charles Chaplin, em que seu ofício mais parece um sobe, desce, aperta e solta diário de engrenagens, uma pilha de tarefas sem fim a serem cumpridas até o final das dez horas de expediente, cinco vezes por semana.
Carlos acredita no AMANHÃ. Mas o amanhã de Carlos não é a esperança de um futuro melhor. O amanhã de Carlos é o lugar mais produtivo e focado do universo! Lá, as planilhas de Excel se preenchem perfeitamente, o relatório mensal da empresa é entregue dentro do prazo e a tão falada “matrícula na academia para se tornar uma pessoa fitness” finalmente acontece. No amanhã, são tiradas as tão sonhadas férias com a família na praia maravilhosa vista nos anúncios de agências de viagem do segundo andar do shopping.
Porém, Carlos tem um terrível inimigo! Esse algoz faz com que o amanhã nunca se aproxime! Este vilão não é enorme, musculoso, com cara de mau, empunhando uma espada, nem o atinge com raios perigosos, ou magia mutante. Pelo contrário: trata-se de um ser minúsculo, frágil, um retângulo de vidro que brilha, mas tem infelizmente o dom da onipresença, está em todo lugar, ao seu lado na mesa de trabalho, no sofá, na sala de jantar, um serzinho tão portátil e tão hipnotizante!
A verdade é que o celular parecia chamá-lo a todo o momento, como o anel de Frodo Bolseiro na incrível saga “O Senhor dos Anéis” que repetia “Frodo… eu vejo você… Bolseiro…”. Carlos… Eu vejo você… Carlos…
Ele sentia um frio na espinha em imaginar que estava perdendo alguma coisa importante se não atendesse ao som das notificações infinitas. Aquele instrumento que outrora havia sido uma virada de chave no mundo da tecnologia, “é como ter sua vida no bolso!”, repetia Steve Jobs em suas palestras sobre a reviravolta que causaria o iPhone, no mundo moderno, simplesmente permeou o dia a dia das pessoas com gatos dançantes e imagens de pessoas caindo em blocos de neve, ou falando arbitrariedades em tom de verdade absoluta.
Carlos recebeu um e-mail do seu chefe pedindo para começar um projeto importante que poderia alavancar o escritório. Era segunda-feira, teria uma semana para concluir o projeto. Os dias se passaram. As barras de rolagens giravam. Do outro lado da tela, outra criatura crescia silenciosamente no canto do escritório: o monstro da entrega. Na quinta-feira à noite, Carlos percebeu que não tinha avançado uma única página do projeto. O monstro da entrega já não era apenas uma pequena criatura. Ele havia se tornado um ser enorme, com dentes afiados, e um olhar julgador, com grandes olhos amarelos que piscavam a seguinte mensagem: “notificação urgente”.
A sexta-feira amanheceu cinzenta. Carlos não tomou café da manhã, não almoçou, mal piscou. Seus dedos voavam pelo teclado do computador, enquanto seu celular não parava de vibrar ao lado, tentando seduzi-lo com alertas de “fulano curtiu sua foto”. A ansiedade era tão grande, que começou a sentir seu estômago queimar, garganta seca, mãos suavam, o coração acelerado, não estava criando um bom projeto, chegou a um ponto em que estava apenas tentando salvar seu emprego!
Às 16h58, com olhos vermelhos, clicou em “Enviar”. O projeto foi entregue, mas estava cheio de erros que saberia corrigir se tivesse tempo. O chefe agradeceu, mas o tom mais tarde após ler o projeto não foi de entusiasmo, parecia mais um alívio frio. Carlos desabou na cadeira sentindo-se um adolescente que deixa sua tarefa de casa para a última hora.
Foi aí que Carlos compreendeu a armadilha: o amanhã não existe para quem vive no ciclo do feed infinito. Com o tempo, encontrou maneiras de driblar o inimigo. Bloqueou as notificações em horário de trabalho e restringiu o tempo de tela.
A procrastinação é o ato de adiar voluntariamente uma tarefa, mesmo sabendo que esse atraso trará consequências negativas. O segredo é priorizar o conforto do presente em detrimento do sofrimento do futuro!
Renata Freire é escritora, médica, psicóloga, mãe, adora o que chama de “literatura do estranho” e dar lições de vida em forma de contos.


